81.4.40 ANTIGO CONVENTO FRANCISCANO DE SÃO BOAVENTURA
SANTA CRUZ • RUA DO HOSPITAL
EDIFÍCIO ISOLADO
ARQUITECTURA RELIGIOSA
IMÓVEL DE INTERESSE PÚBLICO
(Resolução nº98/80, de 16 de Setembro)
ÉPOCA DE CONSTRUÇÃO INICIAL: SÉC.XVII/SÉC.XVIII

DESCRIÇÃO: Antigo convento franciscano constituído actualmente pela igreja, pelo que resta da parte conventual disposta em torno de um pequeno claustro quadrado (situado do lado esquerdo da igreja) e pela capela dos terceiros que entesta na fachada lateral direita da igreja, junto à capela-mor. A parte conventual foi parcialmente alterada pelas sucessivas ocupações desde a expulsão das ordens religiosas, nomeadamente pela adaptação a Hospital da Misericórdia. Actualmente alberga as instalações do Museu das Flores.
A fachada principal da igreja, quadrangular, está enquadrada por cunhais e por uma cornija com faixa lisa por baixo. Está dividida em três níveis por meio de cornijas, sendo os dois níveis inferiores divididos em três secções separadas por pilastras. No nível inferior há três arcos de volta inteira assentes em impostas/capitéis, protegidos por grades de madeira até à altura destas. O arco da esquerda dá acesso ao antigo vestíbulo da portaria, onde actualmente se situa a entrada da zona museológica. Os outros dois arcos comunicam com o nártex da igreja. No segundo nível há uma janela com avental almofadado a eixo de cada secção. A janela central está enquadrada por pilastras e por um entablamento. As pilastras estão assentes em mísulas situadas logo abaixo do peitoril (mas prolongam-se inferiormente ladeando o avental) e os capitéis estão inseridos no entablamento. Sobre a respectiva cornija há uma concha em relevo, ao centro, e um pináculo embutido em cada extremo. Estes três elementos estão sobrepostos a uma faixa horizontal em cantaria. As janelas laterais têm lintel duplo e cornija encimada também por uma concha em relevo e por pináculos embutidos. A janela do lado esquerdo está no topo de um dos corredores do claustro. As outras duas estão ao nível do coro alto da igreja. O nível superior tem, a eixo, um nicho com uma imagem de São Boaventura, uma janela rectangular sobre cada uma das pilastras dos níveis inferiores e, em cada extremo, um par de vãos sineiros desiguais rematados em arco de volta inteira peraltado assente em impostas. A janela da direita ilumina axialmente a nave da igreja. A janela da esquerda e os vãos sineiros da direita são cegos. Só os vãos sineiros do lado esquerdo estão abertos e têm sinos. A fachada é encimada, a eixo, por uma cruz assente numa base com uma caveira e dois ossos cruzados em relevo sobre um pedestal amparado por duas volutas. Nos extremos tem pináculos sobre pedestais na vertical dos cunhais.
A fachada lateral direita tem um soco saliente e está dividida em quatro secções por meio de pilastras cujos pedestais se salientam no soco. A secção da esquerda, mais estreita, corresponde à largura do nártex e está dividida em dois níveis pelo prolongamento da primeira cornija da fachada. No nível superior há uma janela com as mesmas características das janelas laterais da fachada principal, embora com duplo avental almofadado. Na terceira secção a contar da esquerda há um grande portal ladeado por pilastras assentes em pedestais e cujos capitéis (aproximadamente coríntios) se inscrevem já no complexo entablamento que a encima, em cujos extremos assentam pináculos embutidos. Sobre esta porta há uma janela rectangular ladeada por duas curtas pilastras que se prolongam inferiormente em duas meias volutas assentes na cornija superior do portal. Os capitéis destas pilastras inscrevem-se também num entablamento semelhante ao da porta, igualmente encimado por dois pináculos embutidos e, a eixo, por um botão em relevo dentro de um quadrilátero. Os pináculos e o botão já estão sobrepostos à faixa que percorre esta fachada sob a cornija do beirado. Nas outras secções há apenas uma janela simples ao nível superior, rectangular na segunda secção e quadrada na quarta.
Perpendicularmente à fachada lateral da igreja vê-se a fachada lateral da capela dos terceiros, mais baixa, com dois pisos e um expressivo cunhal. No piso térreo tem uma porta e uma pequena janela e no piso superior tem duas janelas de peito com aventais almofadados e cujos lintéis se integram na faixa sob a grande cornija. Tem um soco saliente que prolonga o da fachada lateral da igreja. Na quarta secção da igreja há um banco corrido, encostado ao soco, que também se prolonga para a fachada da capela dos terceiros. A fachada da parte conventual, muito despojada, tem quatro vãos simples em cada piso (uma porta e três janelas de guilhotina no piso térreo e quatro janelas de guilhotina no piso superior).
A nave única da igreja, de planta rectangular, corresponde à largura das duas secções da direita da fachada principal e tem duas portas que abrem para o nártex. Os dois tramos do nártex, separados por um arco largo, são cobertos por abóbadas de nervuras grosseiras, com faixas de pedra (tipo “cadeia”) a unir os fechos dos arcos “torais” aos fechos das abóbadas. Tem um coro alto sobre o nártex, parcialmente balançado sobre a nave, com uma guarda de balaústres de madeira. Na parede interna, entre as duas portas da fachada, há uma pia de água benta com o exterior concheado. No pavimento da igreja, sob o coro, há uma lápide sepulcral com a inscrição ”S. T?? / DO CAPP / MAIOR / BARTU / LAMEU / LCOPIM / TEL FOI / EMTRR / ADOEM / IUNHO / DE / 1730”. A meio da nave há uma porta em cada parede lateral, a do lado da epístola de comunicação com o exterior e a do lado do evangelho de comunicação com o claustro. À esquerda da porta do lado da epístola há uma pia de água benta igual à anterior. Na parede do lado do evangelho, entre a entrada principal e a porta para o claustro há dois vãos destinados a confessionários. Na mesma parede, a seguir à porta para o claustro, há um púlpito com consola em forma de mísula, guarda de grandes balaústres de madeira pintada e guarda-voz em talha à cor da madeira. Em cada parede lateral da nave, junto à parede do arco triunfal, há um altar com um retábulo inserido num grande nicho. Nesta zona (presbitério), o pavimento da igreja (em madeira), sobe um degrau e sobe mais um degrau para acesso a estes altares e à capela-mor. Na entrada da capela-mor há uma guarda de balaústres em madeira. O arco triunfal é rematado em arco de volta inteira assente em pés-direitos com pedestais, bases e capitéis salientes e é ladeado por duas pequenas portas (a do lado da epístola de acesso directo à capela dos terceiros e a do lado do evangelho de acesso directo ao vestíbulo do refeitório). Na capela-mor, mais estreita que a nave, o pavimento volta a subir, a meio, três degraus e depois mais um para acesso ao altar. No nível mais baixo há uma porta de cada lado, sendo a do lado da epístola de acesso à capela dos terceiros e a do lado do evangelho de acesso ao vestíbulo do refeitório. Do lado esquerdo da porta do lado da epístola há uma fresta, mais alta, seguida por outra porta, já no patamar do altar, que conduz, por meio de uma escada estreita, ao compartimento superior situado por trás do altar-mor, hoje destinado às reservas do museu. Do lado do evangelho há uma porta em simetria que, por um corredor estreito, faz ligação ao compartimento inferior atrás do altar. Tanto os retábulos da nave como o retábulo da capela-mor são em talha barroca de ”estilo nacional” dourada e pintada. No interior da igreja, as portas dos confessionários, do púlpito, do coro, de comunicação com a capela dos terceiros, com o vestíbulo e com as arrecadações, têm lintel duplo encimado por cornija. Os pavimentos da nave e da capela-mor são em soalho de pinho e os tectos são em madeira pintada a imitar abóbadas de canhão. A capela dos terceiros, de planta rectangular, implantada perpendicularmente à capela-mor, tem um pequeno retábulo em madeira escaiolada. Através desta capela tem-se acesso a uma pequena escada em pedra que liga ao compartimento do piso superior deste corpo (actualmente de serviços do museu). O patamar inferior da escada acede a um pequeno espaço exterior, murado, com um portão de madeira que comunica com a rua (antigo ”Rego dos Frades”).
O vestíbulo do refeitório, de onde arranca também a escada para o piso superior, está, em relação à igreja, em posição simétrica à Capela dos Terceiros. Este vestíbulo, o refeitório e a cozinha dispõem-se ao longo do lado poente do claustro. O refeitório faz ligação com a cozinha através de uma porta com as arestas da moldura boleadas, encimada por uma pedra quadrada com uma concha assimétrica em relevo e uma flor em cada canto. Sobre cada extremo da verga da porta há um pináculo embutido. A cozinha, elevada por um degrau em relação ao refeitório, tem “caixa do lar” saliente acessível através de um arco abatido.
A escada de acesso ao piso superior do claustro é de dois lanços, em pedra, e tem o seu início e fim enquadrados por arcos (de volta inteira no piso térreo e abatido no piso superior) assentes em pés-direitos com pedestal, base e capitel salientes.
O piso superior do claustro apresenta-se hoje como espaço aberto de exposição museológica. O corredor norte, fronteiro às escadas, é delimitado por arcos assentes em impostas e dá acesso ao púlpito e ao coro da igreja.
O claustro, de planta quadrada, está dividido em dois níveis por uma faixa horizontal, tendo em cada face, ao nível térreo, três arcos de volta inteira suportados por pilares de secção quadrada com pedestais, bases e capitéis salientes. Actualmente estão encerrados com membranas de vidro. A cada arco corresponde, no nível superior, uma janela rasgada até ao pavimento com guarda em ferro fundido à face da parede.
O edifício é construído em alvenaria de pedra rebocada e pintada de branco, excepto as escadas interiores, o arco triunfal, a consola do púlpito, o soco, os cunhais, as pilastras, as cornijas, os arcos, as molduras dos vãos, os pináculos e os elementos decorativos que são em cantaria à vista. As coberturas, de uma forma geral, são de duas águas, em telha de meia-cana tradicional, com beiral duplo.

ELEMENTOS DATADOS: Lápide sepulcral no pavimento sob o coro com a data “1730” inscrita.

ESTADO DE CONSERVAÇÃO: Razoável
FUNÇÃO INICIAL: Convento
FUNÇÃO ACTUAL: Museu
BIBLIOGRAFIA E DOCUMENTAÇÃO DE REFERÊNCIA: A ilha das Flores: Da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua História), Francisco António Nunes Pimentel Gomes, Câmara Municipal de Lajes das Flores, 1997; Concelho de Santa Cruz das Flores: Roteiro Histórico e Pedestre, Pierluigi Bragaglia, Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores, 1999; Arquitectura Popular dos Açores, AAVV, Ordem dos Arquitectos, [Lisboa], [2000]; ”Santa Cruz e as suas igrejas, convento e ermidas”, in O Monchique, suplemento da edição nº6, 21 de Maio de 1998, págs. 2 a 4; “Santa Cruz das Flores – A Fronteira Ocidental da Europa. 455 anos de História”, suplemento do jornal Expresso das Nove de 20 de Junho de 2003; Ficha 6/Flores do ”Arquivo da Arquitectura Popular dos Açores”.
DATA DE LEVANTAMENTO: 2003-09-17
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Última actualização em 2008-10-14