Breve Notícia Histórica sobre a Ilha do Corvo
 
João Saramago*

A distância que separa as Flores e o Corvo das restantes ilhas açorianas teve como consequência que o seu descobrimento e subsequente povoamento só tivessem ocorrido com um desfasamento temporal relativamente às outras ilhas.

Como é comummente aceite, terá sido o navegador Diogo de Teive a descobri-las no seu regresso de uma viagem ao Banco da Terra Nova, no ano de 1452 1

No entanto, subsistem algumas dúvidas em relação a quem terão sido os seus primeiros senhorios.

No Archivo dos Açores (Volume I, pp. 9-10) encontra-se transcrito um documento régio com data de 20 de Janeiro de 1453, em que a ilha do Corvo é doada a D. Afonso, Duque de Bragança e Conde de Barcelos. Viriato Campos afirma que a ilha referida nesse documento não seria mais do que alguma daquelas que se imaginava então existirem à volta dos Açores. Para isso, apresenta três argumentos:
1. A doação ao Duque de Bragança de uma ilha de dimensões tão reduzidas, quando naquela altura ainda havia outras ilhas dos Açores por povoar.
2. A doação, por carta régia de 3 de Dezembro de 1460, a D. Fernando, irmão de D. Afonso V, de todas as ilhas dos arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde. Sendo assim, nessa doação estaria incluído o Corvo que seria então já pertença do Duque de Bragança.
3. A existência, em vários portulanos de Século XV, de uma ilha designada por Corvi Marini, quando os Açores não eram ainda conhecidos 2.
Por sua vez, Pedro da Silveira vê a doação de 1453 numa outra perspectiva: apesar da sua pequenez, a importância da ilha, juntamente com a das Flores, residiria na sua posição estratégica face ao projecto de expansão para Ocidente 3.

A primeira referência fiável à ilha do Corvo aparece num documento de 28 de Novembro de 1474: D. Afonso V doa a Fernão Telles, para além das ilhas que ele viesse a descobrir, desde que não fossem no Golfo da Guiné, as "ilhas que chamam de Flores que pouco há que achara Diogo de Teive e João de Teive seu filho (...) que as ditas ilhas achou e tinha  4." A ilha do Corvo, bem como a das Flores, pertenceu às seguintes famílias e entidades:

aos Teive, de 1452 a 1475;
aos Telles, de 1475 a 1503;
aos Fonseca, de 1503 a 1593;
aos Mascarenhas (condes de Santa Cruz), de 1593 a 1759;
à Coroa, de 1759 a 1815;
a Pedro José Caupers (por três vidas) de 1815 a 1832 (em 1853, as terras foram vendidas aos antigos foreiros).

Os Teive tiveram como única acção lançarem gado nas duas ilhas, não mostrando grande interesse no seu povoamento; com efeito, é apenas perto do fim da época dos Telles que se verifica a primeira tentativa de povoamento das Flores por parte do flamengo Willem Van der Haghe (Guilherme da Silveira) que, no entanto, veio a abandonar a ilha 5.

Em 1507, as duas ilhas ainda eram dadas como despovoadas por Valentim Fernandes 6.

Por volta de 1508-1510, Antão Vaz e Lopo Vaz, residentes na Terceira, chegaram a acordo com João da Fonseca para se instalarem respectivamente no Corvo e nas Flores. É assim que, muito provavelmente, os primeiros colonos terão vindo da Terceira e, eventualmente, também da Madeira 7.

Fazendo fé em António da Silveira Macedo, Antão Vaz regressou à Terceira em 1515 e seriam três irmãos Barcelos a tentar novo povoamento, que voltou a fracassar 8.

Em 1548, Gonçalo de Sousa foi confirmado como senhorio das duas ilhas e enviou para o Corvo "seus escravos de quem ele fiava (...) que cultivavam a ilha e olhavam por seus gados 9." Passados mais alguns anos foram das Flores para o Corvo mais habitantes: "aqui nestas terras baixas começaram a situar os primeiros povoadores, que foram os filhos e netos dos da Ilha das Flores (...) e assim foram atraindo outros, e multiplicando-se com os que de novo nela nasciam 10."

Gaspar Frutuoso, no capítulo referente ao Corvo, em finais do século XVI, fala já de uma população que vive "em casas palhaças, que serão até vinte vizinhos, rendeiros e negros do senhorio" e "certos escravos, e mulatos casados com escravas 11." Apenas no último quartel do século XVI, praticamente um século passado desde o seu achamento, se verifica o povoamento definitivo da ilha do Corvo.
Pode imaginar-se que, nos anos seguintes à descrição de Gaspar Frutuoso, se tenha verificado um aumento gradual da população devido a uma maior e melhor exploração agrícola dos terrenos da ilha.
É, pois, num quadro de relativa prosperidade que o Corvo se encontra quando, juntamente com as Flores, passa para a posse dos Mascarenhas em 1593. No entanto, em breve, tal quadro é alterado para uma situação de crise que progressivamente se vai agravando e que só terá o seu fim em meados do século XIX.

Para tal modificação podem apontar-se os seguintes factores:
o agravamento do foro;
o aumento acentuado da população;
a fraca "vida de relação" com o exterior e o sistema de auto-suficiência alimentar a que ela obrigava;
a impossibilidade de aumentar significativamente a área de cultura;
as frequentes incursões dos ingleses, durante a dominação filipina, por se encontrarem em guerra com a Espanha.

Em relação ao foro, os corvinos passaram a ter que pagar anualmente 40 moios de trigo e 80$000 réis em pano de lã. Como o gado caprino e ovino era pertença do senhorio, eram vendidas anualmente à população cerca de 100 varas de pano de lã 12.

Dos efeitos negativos que o pagamento do foro provoca, dá-nos conta um documento da Câmara de Santa Cruz que acompanha uma petição da população corvina ao capitão-general dos Açores em 1768. Nela se afirma "não chegarem as searas de trigo para pagar a pensão, dízimo e ficar semente (...) sendo forçoso aos ditos moradores (...) comerem das searas que fazem de junça, pouco milho (...); queimando em lugar de lenha, palha (...); andam os homens e mulheres quasi nus 13." Relativamente ao aumento da população, são várias as referências:
Frei Diogo das Chagas já dá conta desse aumento: "e assim se povoou de tal modo, que não cabem já hoje os povoadores nela 14."
Na referida exposição de 1768, afirma-se que "vivem dous a trez casaes em huma choça de palha 15."

Os escassos contactos com o exterior obrigam a um sistema de auto-abastecimento alimentar. Gaspar Frutuoso aponta o facto de, durante muito tempo, não haver no Corvo uma embarcação: quando era necessária a sua vinda da ilha das Flores eram feitos sinais de fumo. Assim, o raro comércio era efectuado através da ilha vizinha que, normalmente, só tinha ligação marítima com as restantes ilhas apenas entre Março e Setembro, altura em que as condições atmosféricas eram mais favoráveis 16, Por aqui se pode ver até que ponto tinha a ilha de ser auto-suficiente. Chagas refere a extracção de sal que a população fazia das cavidades de uma rocha onde a água do mar ficava depositada 17,

A exposição de 1768 também menciona a impossibilidade de aumentar a área de cultura devido ao carácter inóspito de uma parte da ilha e à derrocada de terrenos aráveis em 1766, acrescido de um enfraquecimento gradual das terras cultivadas. Em 1759, a ilha passa a pertencer à Coroa por confiscação dos bens do Duque de Aveiro. Tal facto não impede que o foro se mantenha e, em 1819, a comenda das Flores e Corvo é concedida, por três vidas, a Pedro José Caupers.

Em Maio de 1832, aproveitando a presença do Príncipe Regente na ilha Terceira, onde instalara o seu governo, desloca-se àquela ilha uma delegação corvina para se queixar directamente das graves carências sentidas pela população. Um decreto de 14 de Maio de 1832 reduz o foro para 20 moios de trigo, sendo abolida a parte monetária.

Passando por reduções graduais, o foro acaba por ser extinto, em 1853, por venda aos foreiros: "Desde então começou a ilha a progredir, os seus habitantes a dedicar-se ao cultivo das suas terras e criação dos seus gados, obtendo não só o necessário para o seu sustento e vestimenta, mas ainda para fornecimento dos navios que ali aportam frequentemente 18.

Factor indiciador dessa melhoria de vida é o das casas, já antes de 1871, serem todas cobertas de telha. Deve salientar-se ainda a existência, desde 1845, de uma escola primária masculina e, em 1871, o facto de ter começado a haver ensino nocturno para adultos.

A população também aumenta. Os números conhecidos até ao início do século XX são os seguintes:
1842 - 800 habitantes e 190 fogos [BULCÃO (1892:554.-557)]
1864 - 883 habitantes [MEDEIROS (1987:101)]
1871 - 887 habitantes e 201 fogos [MACEDO (1871, vol. III:224)]
1878 - 880 habitantes [MEDEIROS (1987:102)]
1890 - 806 habitantes [ibidem]
1900 - 808 habitantes [ibidem].
O que chama desde logo a atenção nos números apresentados é o decréscimo da população, no último quartel do século XIX, em cerca de 9%. Tal facto deve-se à emigração que começa a verificar-se, sobretudo para os Estados Unidos, em todo o arquipélago dos Açores 19. E é essa mesma emigração que se torna o factor determinante na oscilação demográfica do Corvo durante o século XX.

Os valores dos censos da população são os seguintes:
1900 - 808 habitantes
1911 - 746 habitantes (- 62)
1920 - 661 habitantes (- 85)
1930 - 676 habitantes (+ 15)
1940 - 691 habitantes (+ 15)
1950 - 728 habitantes (+37)
1960 - 681 habitantes (- 47)
1970 - 485 habitantes (- 196)
1981 - 370 habitantes (- 115)
1987 - 382 habitantes (+ 12) 20
2001 - 430 habitantes (+48) 21.

No século XX podem determinar-se quatro períodos na evolução demográfica da ilha:
1º período, que vai até cerca de 1925, altura em que os Estados Unidos começam a colocar sérios entraves à emigração. Neste período verifica-se uma quebra populacional de cerca de 18%.
2º período, que vai até 1955, altura em que começa novo fluxo emigratório. Neste período verificou-se uma emigração alternativa para a América Latina, sobretudo para o Brasil. Não chegou a ser muito significativa, disto é prova o aumento populacional: um acréscimo de cerca de 10%.
3º período, que vai até ao início da década de 80, em que se verifica novo e forte fluxo emigratório. Neste período a população diminuiu cerca de 49%.
4º período, do início da década de 80 até à actualidade. Face a novas restrições da emigração e a um certo desenvolvimento económico e social da ilha, a emigração é praticamente nula, tendo-se registado apenas a existência de quatro emigrantes entre os anos 1981-1987. É notório, sobretudo nos últimos catorze anos, um aumento populacional acentuado: 12.5%.

A este aumento não devem ser estranhos dois factores:
1. O retorno de emigrantes à ilha. Na realidade, da população residente, 71 indivíduos já viveram nos Estados Unidos ou no Canadá.
2. O aparecimento de novos postos de trabalho bem como a recente criação de uma escola do ensino básico vieram proporcionar condições para uma fixação efectiva da população mais jovem 22.

BIBLIOGRAFIA CITADA

BULCÃO, António Lacerda (1892), "Cinco dias na Ilha do Corvo", Archivo dos Açores, vol. XI, n.º 66, Ponta Delgada, pp. 554-557.
CAMPOS, Viriato (1983), Sobre o Descobrimento e Povoamento dos Açores, Europress, Lisboa.
CHAGAS, Frei Diogo das (1989), Espelho Cristalino em Jardim de várias Flores, (Direcção e prefácio de Artur Teodoro de Matos, colaboração de Avelino de Freitas Meneses e Vítor Luís Gaspar Rodrigues), Secretaria Regional da Educação e Cultura, Angra do Heroísmo [a parte dedicada ao Corvo: pp. 489-494].
CORTESÃO , Jaime (1933-36), "A viagem de Diogo de Teive e Pero Vasquez de la Frontera ao Banco da Terra Nova em 1452", Arquivo Histórico da Marinha, vol. I, Lisboa, pp. 7-24.
FRUTUOSO, Gaspar (1963), Livro Sexto das Savdades da Terra, Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ponta Delgada.
MACEDO, António Lourenço da Silveira (1871), História das Quatro Ilhas, que formam o Districto da Horta, 3 volumes, Horta. [fac-simile da edição de 1871: Região Autónoma dos Açores, Secretaria Regional da Educação e Cultura, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Angra do Heroísmo].
MEDEIROS, Carlos Alberto (1967), A Ilha do Corvo, 2.ª edição, Livros Horizonte, Lisboa, 1987 (com um apêndice).
SILVEIRA, Pedro da (1960), "Para a história do povoamento das Ilhas das Flores e do Corvo" (com três documentos inéditos), Boletim do Núcleo Cultural da Horta, vol. II, n." 2, Horta, pp.175-198.

* Investigador principal no Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. Autor de Le parler de l'île de Corvo-Açores, n.º 1 Hors série da revista Geolinguistique, do Centre de Dialectologie da Université Stendhal-Grenoble III. Presentemente é o responsável pelos projectos Atlas Linguístico-Etnográfico de Portugal e da Galiza e Atlas Linguístico-Etnográfico dos Açores.

1 Sobre o assunto, veja-se CORTESÃO (1933-36: 10, 14, 15).
2 CAMPOS (1983:39).
3 SILVEIRA (1960:175).
4 Archivo dos Açores (vol. I, pp. 21-28).
5 Para MACEDO (1871:I, 20), o abandono deveu-se ao insucesso da exploração agrícola. SILVEIRA (1960:176-177) aponta como razão para tal abandono o facto de Van der Haghe ter sido preterido, na venda das duas ilhas, em favor de João da Fonseca.
6 Manuscrito "Valentim Fernandes", leitura e revisão por António Baião, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1940, apud CAMPOS (1983:36).
7 SILVEIRA (1960: 177), citando Carlos Mesquita.
8 MACEDO (1871:I, 21).
9 CHAGAS (1989:562).
10 CHAGAS (1989:564).
11 FRUTUOSO (1963:348-350).
12 O moio corresponde a 60 alqueires. A vara de pano correspondia no Corvo a 2m de comprimento por 0,5m de largura.
13 Archivo dos Açores (vol. VI, pp. 18-20).
14 CHAGAS (1989:565).
15 Os números conhecidos para a população corvina até finais de século XVIII são os seguintes: 1589: cerca de 70 habitantes e 20 fogos [MEDEIROS (1987: 182)];
1678: cerca de 400 habitantes e 122 fogos [SILVEIRA (1960: 184-193)]; 1768: 720 habitantes e 130 fogos [Archivo dos Açores, vol. VIII, pp. 184-185]; 1796:
790 habitantes [Archivo dos Açores, vol. XI, p.149].
16 FRUTUOSO (1963:58-59).
17 A oeste do vila, junto ao mar, existe o topónimo Rocha do Sol. CHAGAS (1989:567).
18 MACEDO (1871, vol. I:71-76 e vol. III:139).
19 No Archivo dos Açores, vol. XI, uma notícia de um anónimo sobre o Corvo já refere o fenómeno de emigração: "raros são os homens do Corvo que na sua adolescência não fizeram o seu tirocínio ou como trabalhadores nas terras americanas do norte ou como marítimos em alguma embarcação de pesca (baleeira)" (p.541).
20 Contagem feita pelo autor no mês de Março. Nesta contagem incluem-se 32 indivíduos que, na altura, constituíam a população flutuante da ilha.
21 Informação fornecida, em Fevereiro, pela Câmara Municipal do Corvo. Este número inclui os 47 indivíduos que constituem a população flutuante.
22 Ainda de acordo com os dados camarários, 140 dos 383 indivíduos da população residente tinham trinta ou menos anos de idade; 150 entre os trinta e os sessenta anos; 93 entre os sessenta e os noventa anos de idade. Estes valores actuais permitem constatar que, para além de um aumento da população nos últimos anos, se verifica, igualmente, um certo rejuvenescimento dessa mesma população.

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Última actualização em 2006-03-27